terça-feira, 12 de maio de 2015

Laura Nyro


Laura Nyro nasceu em 18 de Outubro de 1947, no bairro do Bronx, em Nova Iorque, mais precisamente, esquina com Taft High School. Descendente de famílias judia e italiana, se interessou por música desde jovem, ouvindo seu pai, Louis Nigro, tocar trompete em casa, ou com sua banda de jazz.

Sobre o estilo de seu som, podemos perceber várias influências da melhor música americana de todos os tempos. Elementos de soul, jazz, blues, R&B, e folk predominam em sua obra, além de ecos da gravadora Montown e vocalizes baseados no gospel. Sua assinatura sonora é inconfundível, e mesmo bebendo em tantas fontes, ainda assim seu estilo é marcante.

Foi gravada por vários artistas, desde Peter, Paul and Mary, The Fifty Dimension, Three Dog Night, Barbra Streisend, Frank Sinatra, Chet Atkins, Linda Ronstadt, dentre outros. Influenciou cantores/autores como Carole King, Suzanne Vega, Elton John, Rickie Lee Jones, Tori Amos, Kate Bush, Todd Rundgren, Barry Manilow, e até Joni Mitchell.


Numa primeira audição, é claramente perceptível a semelhança entre as vozes de Laura e Joni Mitchell, com seus falsetes e tom bem agudo. Provavelmente, quem já aprecia as músicas da loira canadense, vai gostar do trabalho de Laura. Vale lembrar que as duas foram descobertas pelo mesmo empresário, David Geffen, em épocas diferentes. Outra cantora que se assemelha a ela, só que em menor grau, é a já citada Carole King, que fez bem mais sucesso que Laura (e talvez, Joni) seguindo uma linha mais pop e acessível.

Com apenas 18 anos, Laura Nyro lança seu primeiro disco More Than a New Discovery (1966), pelo selo Verve/Folkways. Mais tarde, esse disco foi relançado com o nome de Laura Nyro (1969) e por fim, The First Songs (1973). O disco foi um fracasso de vendas, e só conseguiu entrar nos charts da Billboard em seu terceiro relançamento (The First Songs), alcançando o #97o lugar.

Apesar das baixas vendas, o álbum debut da cantora teve regravações que fizeram sucesso na voz de artistas consagrados: Wedding Bell Blues e Blowin' Away, gravadas pelo grupo The Fifth Dimension; Stoney End, por Barbra Streisend, e And When I Die, pelo grupo Blood, Sweat & Tears.

Em 1968, Laura lança, pela Columbia Records, Eli and the Thirteenth Confession. O album ganhou a admiração de grande parte da crítica. Jon Landau, da revista Rolling Stone, disse que o disco era “um trabalho de um original e brilhante jovem talento”. As letras revelavam uma inesperada maturidade da jovem garota: em Eli's Comin, seu amante é um anjo vingador, e em The Confession, ouve a voz de um falecido pai falando de dentro da sepultura (!).

No verão de 1969, Laura lança o belíssimo New York Tendaberry, um álbum melancólico e climático, considerado sua obra prima pela maior parte dos críticos. O disco oscila entre momentos singelos e atormentados, e a voz e piano de Nyro são completadas esporadicamente pela banda de apoio. Muitos momentos de silêncio entrecortam as canções, entre vocalizações ora sussurradas, ora intensas.



Jerry McCulley disse sobre o disco: “Uma madura e muito profunda ode a sua cidade natal, Nova Iorque, a obra de Nyro captura a alma multicultural da cidade. Ela desfia emocionalmente seu canto tão extremamente bem, que fica difícil acreditar que uma garota de 22 anos, filha de um músico de jazz que mal sabia ler uma nota, possa ter composto isso.”

Em 1970, ela lança Christmas and the Beads of Sweat. É um disco bem mais acessível que New York Tendaberry, com canções belíssimas. Nyro resgata canções de artistas da soul music, como Barry Beckett, Roger Hawkins e Eddie Hinton. Vale ressaltar que o disco contou com a participação especialíssima de Duane Allman, guitarrista dos Allman Brothers.

Um ano depois, ela grava outro magnífico álbum, Gonna Take a Miracle, ao lado da cantora Patti LaBelle, e produzido por Gamble & Huff. Neste disco, não há canções de autoria de Laura (exceto a faixa Desiree), somente regravações, que ela descreve como “canções adolescentes do coração (“teenage heartbeat songs”).

Destacam também os tributos a gravadora Montown (Jimmy Mack, Nowhere to Run) ao doo woop (além de The Bells, Spanish Harlem) e aos grupos vocais femininos (I Met Him on a Sunday). Musicalmente, é o trabalho da cantora que mais se volta para suas influências de soul e R&B, elementos realçados pelos vocais de LaBelle.

Depois de uma pausa na carreira, e uma tentativa frustrada de casamento, a cantora retorna ao mundo da música em 1976, lançando Smile, cinco anos depois de seu último disco de inéditas. Smile é dedicado à mãe de Laura, tem participação dos irmãos Randy e Michael Brecker no trompete e saxofone. Michael participaria, anos depois do antológico Shadows and Light, disco ao vivo de Joni Mitchell que reúne músicos do quilate de Pat Metheny, Jaco Pastorius e Lyle Mays. Em “Smile”, o som do violão (tocado por Laura) assume maior destaque nos arranjos.

A tour que se seguiu ao lançamento de Smile durou quatro meses. Os shows foram gravados, e lançados em disco com o nome de Seasons of Light, em 1977. A tendência folk que Laura parecia evidenciar nessa época não se resumia aos arranjos: a própria capa do disco assemelha-se muito às capas dos álbuns de Cat Stevens.



Um ano depois ela lança Nested, inspirada pela gravidez de seu único filho (que hoje em dia mora no bronx e se tornou rapper). Assim como “Smile”, o som do violão se torna mais presente. Uma pequena “tour” sucedeu também esse álbum. “A turnê foi especial”, ela diz, “porque eu estava grávida nessa época, e cantei até umas poucas semanas antes de ter o bebê. Cantei músicas minhas e até bandeei para umas velhas canções de Curtis Mayfield e The Impressions”.

Assim como John Lennon na ocasião do nascimento de seu filho Sean, Laura deixa a carreira pela segunda vez para cuidar do filho. Novamente a música e a estrada falam mais alto, e ela retorna em 1984 com o belo Mother's Spiritual. Mais que suas influencias musicais de soul e R&B da primeira fase, aqui o que sobressai através das canções são elementos mais subjetivos de Laura: O multiculturalismo de Nova York, a vida rústica em New England, e principalmente, a maternidade. Sobre esse disco, Rob FitzPatrick escreveu que “Laura Nyro vê a natureza como uma mãe em sua perfeição, que tudo concede, uma provedora, uma força acima das disputas da religião e do comércio...”.

O próximo disco de Nyro seria o último lançado em vida. Walk the Dog & Light the Light saiu em 1993, depois de 9 anos sem lançar um trabalho de inéditas. O canto do cisne da cantora é maduro e inspirado, um exemplo de pop bem construído e sem exageros, equilibrado e conciso.

Ela canta sobre temas como os direitos dos animais em Lite a Flame (The Animals Right Song), onde compara a opressão de elefantes presos em zoológicos a opressão de outras pessoas. O feminismo aparece em Woman of the World, que exalta as figuras de Billie Holiday, Louise Nevelson e Frida Kahlo; e em The Descent of Luna Rosé, que Laura dedica aos “ciclos mensais das mulheres”.

Logo após ser diagnosticada com câncer no ovário e iniciar uma batalha contra a doença, Laura começa a fechar alguns ciclos de sua vida. Organiza uma compilação de sua obra, chamada The Best of Laura Nyro: Stoned Soul Picnic, que tem seu lançamento atrasado por conta de divergências com a gravadora Columbia. Em seus últimos dias, pediu a família para plantar uma árvore japonesa embaixo da janela de seu quarto, que cresceria depois de sua morte.

Laura Nyro morreu em Danbury, Connecticut, em 08 de abril de 1997, aos 49 anos, de câncer no ovário, a mesma doença que tirou a vida de sua mãe nessa mesma idade. Uma quantidade imensa de flores e cartas de condolência foram enviadas a Maria Desiderio, que junto com a família de Laura, seria responsável por seu espólio.




Foi feito um concerto-tributo a Laura no Beacon Theater, em Manhattan, que contou com performances de cantores como Rickie Lee Jones, Cyndi Lauper, Sandra Bernhard, Phoebe Snow, Kenny Rankin, Desmond Child and Rouge, e Patti LaBelle, que gravou com Laura o disco Gonna Take a Miracle. Deborah Sontag escreveu, à época, que o concerto oferecia uma explicação que, apesar de clichê, parecia decifrar o mistério por trás do “anonimato” pelo qual a cantora passou: “Nyro optou por sair do mercado musical porque tanta grosseria e comercialismo de custos crescentes e insuportáveis ofendiam sua alma artística”.

Ainda em 97, Louis Nigro, pai de Laura, então com 81 anos, comentou sobre a filha: “Ela poderia ter tido então tantos discos de ouro na parede quanto teve Neil Sedaka. Mas Laura sempre foi muito sensível. Ela não gostava de colaboração. Ela não gostava de compromissos. Ela era uma artista, e ela não gostava - pelo contrário, odiava a festa do showbizz”.

Vários álbuns póstumos foram lançados desde então. Em 2001 saiu Angel in The Dark, reunindo suas últimas gravações, feitas entre 1994 e 1995. As 16 músicas do disco mostram que mesmo doente, Laura estava em excelente forma como intérprete e compositora. Seria possível fazer uma pequena ressalva sobre a falta de uma "unidade" entre as canções – sente-se falta do conceito de "álbum" conectando o trabalho. Mas este é certamente um detalhe menor, que em nada compromete o disco.

Um álbum-tributo também foi feito, logo depois da morte de Laura. Time and Love: The Music of Laura Nyro conta com participação de varias cantoras, como Suzanne Vega e Lisa Germano. E em 2002, sai Live: The Loom's Desire, com gravações de shows de natal feitos em 93 e 94.

Em 2012, a cantora foi homenageada pelo Rock and Roll Hall of Fame. Ainda que suas influências e seu som não estejam propriamente ligadas com o estilo do rock, um reconhecimento dessa proporção é certamente bem vindo - ainda mais para uma cantora sempre neglienciada a citações de rodapé, quando muito. Porém, nesse caso da indicação, nem tudo são flores:

Em um dos videos feitos pelo RARHOF, Meredith Rutledge-Borger, curadora do museu da instituição, comenta a homenagem à Laura Nyro, mas baseia o mérito da indicação em um erro crasso: o de que Laura teria sido apenas uma compositora que compunha para outros artistas. Além dessa informação contrariar todos os discos e toda a magnitude de Nyro como intérprete, a curadora ignora outros dados, como o de que algumas canções de sucesso de Laura com outros intérpretes (como Wedding Bell Blues, por exemplo) foram feitas quando ela tinha apenas dez anos de idade.


Texto de Rafael Senra. Adaptado de uma biografia mais extensa escrita pelo autor no site que ele organizou sobre Laura. http://lauranyro.blogspot.com.br/ 


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