sexta-feira, 22 de maio de 2015

Nelson Angelo e Joyce (1972)


Raridade da MPB, o disco Nelson Angelo e Joyce (1972) é uma pepita sonora de altíssimo nível, mas que não teve um reconhecimento de público à altura de sua qualidade.

Apresentamos aqui dois textos sobre o disco: The Man and the Girl From the Avenue, de Rafael Senra, além de uma resenha escrita por Pablo Castro, esta publicada originalmente no blog Massa Crítica Música Popular.


The Man and the Girl From the Avenue
Rafael Senra

Essa é a primeira postagem do Antiquário do Som que envolve música popular brasileira. Nada mais natural para mim nesse momento do que abordar um disco do Clube da Esquina – movimento musical que pesquisei na época do mestrado e que rendeu o livro Dois Lados da MesmaViagem, publicado em 2013.

Para quem não conhece, o Clube da Esquina é um movimento musical nascido em Minas Gerais, capitaneado por Milton Nascimento. O nome “Clube da Esquina” tem várias origens: teria sido criado pela mãe dos “clubistas” Márcio e Lô Borges, dona Maricota, para denominar a turma que ficava sentada no passeio de BH tocando violão até de noite. 

Clube da Esquina foi também a primeira música composta por Milton, Lô e Márcio Borges em parceria – e lançada no disco Milton, de 1970. Por fim, Milton e Lô lançariam o disco duplo Clube da Esquina em 1971, e este trabalho projetaria a carreira de todo o grupo mundialmente. Porque, apesar dos créditos principais se referirem a Milton e Lô, estavam nos bastidores os principais nomes do movimento: Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Novelli, Tavito, Robertinho Silva, além de letristas como Fernando Brant, Ronaldo Bastos, etc.

Diversos integrantes do Clube da Esquina. Nelson Ângelo está na extrema direita, bem atrás, de pé.

Joyce
Na carreira dos músicos do Clube da Esquina, existe o que eu considero como uma espécie de trilogia desconhecida. São discos lançados logo após o trabalho coletivo de 1971, e todos muito obscuros: Nelson Ângelo e Joyce (1971), Beto Guedes Danilo Caymmi Novelli Toninho Horta (1973) e o Disco do Tênis, de Lô Borges (1972).

Além de não terem tido muita projeção de público, os três tem um clima bem obscuro, soturno, com letras ora sombrias e amargas, as vezes bem subversivas, ou poéticas e delicadas em outros momentos. Mesmo quando o conteúdo é mais contundente, as letras desses discos nunca resvalam para uma crítica ideológica mais direta. O tom é sempre poético, subjetivo, pessoal.


Nelson Ângelo

Tanto Nelson Ângelo quanto Joyce, cada um com sua carreira, ficariam conhecidos anos depois por trabalhos mais próximos da bossa nova, temática e musicalmente. Mas nessa fase, os dois (que eram casados) tentaram se aproximar mais do clima da contracultura que influenciava o Clube da Esquina.

Assim como a maior parte dos artistas do Clube, o disco que Nelson e Joyce gravaram tem essa dupla orientação, ora com harmonias e levadas que remetiam à bossa nova, e ora com um clima folk psicodélico, que dialogava com influências estrangeiras. Uma antropofagia feita ao modo mineiro. Devo dizer que essa é uma definição didática, que pode ajudar a entender o estilo do trabalho, mas uma análise mais minuciosa desse disco certamente revelará diversas outras nuances, principalmente de influências regionais e sertanejas.

A Tribo: da esquerda para a direita: Toninho Horta, Joyce, Nelson Ângelo, Novelli

Pouco antes de gravar esse trabalho, Nelson e Joyce estavam no grupo A Tribo, ao lado de Toninho Horta e Novelli, e lançaram um compacto com quatro faixas pela gravadora Odeon. Em faixas como Sei Lá, percebemos um som mais direto, já investindo na mistura bossa/psicodelia. A guitarra envenenada de Toninho lembra bastante o que Pepeu Gomes fazia nos Novos Baianos, e o violão de nylon no fundo dá uma liga brasileira para o tema.



Esse clima transgressor e experimental capturou todos os jovens da época, e certamente não se restringia apenas ao aspecto artístico. Era um modo de vida hippie, ambientado e aclimatado nas possibilidades culturais e sociais do Brasil da época. Isso fica bem claro nessa fala da Joyce a respeito d’A Tribo, que roubartilhei do ótimo blog Woodstock Sound:

A Tribo nasceu em 1970. Eu Nelsinho, Novelli e Naná Tínhamos chegado do México, onde fazíamos parte do conjunto “Sagrada Família”, liderado por Luis Eça (Novelli também vinha do México mas pertencia a outro grupo). Eu e Nelsinho nos casamos junto com o Novelli e a Luci, mulher dele, no mesmo dia e os quatro alugamos um apartamento enorme no Jardim Botânico. Toninho Horta ainda estava em Minas e queria vir morar no Rio. Nós o convidamos para vir morar e trabalhar com a gente. Mais ou menos na mesma época o Naná teve um convite do Gato Barbieri para trabalhar com ele na Europa e foi embora. Para substituí-lo, chamamos o Nenê, baterista gaúcho radicado em São Paulo, que veio também morar com a gente. De modo que A Tribo era antes de tudo uma comunidade. Durou até fins de 71, quando a necessidade de grana se fez maior. Todas as mulheres da comunidade, inclusive eu, engravidaram. Nelsinho, Novelli e Toninho foram trabalhar com a Elis que era um “gig” muito bem paga na época. Nenê voltou pra São Paulo (mas trabalharia anos depois com Elis no show Falso Brilhante).

Voltando ao disco de Nelson e Joyce de 1971, podemos dizer que é um trabalho que transpira espontaneidade. Faixas como Tiro Cruzado (a mais conhecida do disco) teve sua letra escrita em cerca de dez minutos por Márcio Borges, pouco antes de ser gravada no estúdio. Esse clima de urgência da época é notada em diversas composições não só deste disco, mas do Clube da Esquina em geral.

A maior parte da instrumentação é acústica, com os violões folk/bossanovistas de Nelson, flautas de Danilo Caymmi, pianos (tocados por Wagner Tiso, e mesmo gente das “cordas” como Toninho Horta ou Novelli), percussões variadas tocadas por diversos músicos, e outras participações bem especiais: Beto Guedes fazendo um bandolim ali ou um backing vocal acolá, Lô Borges fazendo violões e baixos em alguns momentos, e o mítico tecladista Francisco Tenório Jr. tocando pianos e cravos em algumas faixas.


Bolacha completa - Nelson Angelo & Joyce (1972)
Por Pablo Castro

Nelson Ângelo, belorizontino radicado no Rio, é um dos maiores harmonizadores do Clube da Esquina. Participou ativamente como instrumentista nos maiores clássicos de Milton , e teve várias pérolas gravadas por ele, das quais se destacam Fazenda, Canoa, Canoa, Testamento, Simples, Sacramento, Quatro Luas, e teve a canção Tiro Cruzado regravada por Tom Jobim e ainda por Sérgio Mendes. Exímio conhecedor do violão, é um investigador de inusitadas e marcantes possibilidades harmônicas inovadoras, além de incisivo melodista.

Foi casado com Joyce , com quem formou o grupo A Tribo (que contava também com Toninho Horta e Naná Vasconcelos), e depois lançou com ela o célebre álbum Nelson Ângelo e Joyce, de 1972, sua contribuição fundamental para o acervo fonográfico do Clube Da Esquina, com a participação de Toninho Horta, Novelli, Beto Guedes, Lô Borges, Wagner Tiso, o saudoso Tenório Jr, Danilo Caymmi, no auge das contribuições coletivas do grupo.

Esse disco é fundamental para se entender o Clube da Esquina, uma vez que, além das contribuições dos músicos, há letras de Márcio Borges e Ronaldo Bastos, além das do próprio Nelson, e uma de Joyce, e desvela as cores mais ripongas entre as composições do grupo. Orquestrações lindíssimas, o convívio onírico entre flautas, violões e violas, a voz cristalina de Joyce, que poderia ser considerada, em termos, como a única intérprete feminina nos discos fundamentais do Clube, com seu canto belo e sem ornamentações, perfeito para dar brilho e corpo para as surpreendentes soluções melódicas do parceiro. Meia hora de surpresas musicais que 40 anos depois não deixam de encantar.







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