terça-feira, 26 de maio de 2015

Sidney Miller - Língua de Fogo (1974)


Compartilhando aqui uma super raridade descoberta pelo Luiz Henrique Garcia, do blog Massa Crítica Música Popular: o disco Língua de Fogo (1974), do carioca Sidney Miller. Como bem definiu o Luiz na sua postagem, a sonoridade nos remete imediatamente a trabalhos do Clube da Esquina e Som Imaginário


É o último disco da curta carreira desse cantautor, e representa uma ruptura radical com seus dois discos anteriores. De acordo com Leonardo Guedes, em seu ensaio “Línguas de Fogo”: o surpreendente caldeirão de Sidney Miller, já na “capa cinzenta, ele aparece muito diferente do jovem tímido de terno que se destacou nos conhecidos festivais de MPB na televisão durante a década de 1960: o estilo é totalmente hippie, com cabelos compridos e as típicas calças boca-de-sino da ocasião”.



Miller nasceu em 1945, e era um artista precoce (escreveu um romance ainda aos 12 anos), além de ser multifacetado: trabalhou com cinema, teatro, poesia, canção infantil, foi escritor, poeta, compositor (na música, se enveredou pelo samba, marcha, folk, progressivo), e mesmo no âmbito profissional foi inquieto: saltou da diplomacia para a sociologia, depois economia...

Sua carreira musical estourou em 1964, quando sua composição Pede Passagem estoura em uma interpretação de Nara Leão. Apesar da necessidade de continuar flertando com diversas atividades (aos 25 anos, Miller disse que “o importante é existir uma primeira experiência”), o incentivo de Nara fez com que ele iniciasse uma carreira na música.

No video: Show com a cantora Joyce Moreno, promovido pela Funarte, onde ela repassa as músicas mais conhecidas de Sidney Miller.

Seu primeiro disco saiu pela gravadora Elenco, em 1967. Na capa (sempre em preto-e-branco, seguindo o elegante padrão visual do selo), Miller ainda com um estilo sóbrio, típico dos jovens cantores pós-bossa novistas que despontavam na mesma época, como Edu Lobo ou Chico Buarque.



Miller foi muito comparado com Chico, por causa das letras sofisticadas e inspiradas. Em 2000, Chico foi convidado por Cristina Saraiva para cantar em um tributo à Sidney, e o cantor logo manifestou o desejo de gravar Pede Passagem. Infelizmente, parece que este disco não se viabilizou até hoje, por falta de patrocínio.

Em 1968, também pela Elenco, Miller grava Brasil, do Guarani ao Guaraná, um trabalho mais inclinado para o espírito da Tropicália. Esse disco contou com diversas participações especiais: Paulinho da Viola, Gal Costa, Nara Leão, MPB-4, Gracinha Leporace e Jards Macalé, dentre outros.



Em 1974, grava seu disco mais transgressor, Língua de Fogo. No site da Funarte (que mantém uma sala em homenagem ao compositor, a sala Sidney Miller), esse disco é definido como progressivo; gênero que se mescla ali também com o folk, o rock e com uma dicção própria da MPB da época.

Alguns vídeos no you tube dizem que a banda de apoio de Sidney nesse disco é bem familiar aos trabalhos do Clube da Esquina: Toninho Horta, Robertinho Alves, Danilo Caymmi, e até mesmo o saudoso pianista Tenório Jr. A sonoridade e os arranjos de Língua de Fogo deixam a impressão de que a informação procede.



Infelizmente, este foi o último disco de Sidney Miller em vida. Ele passaria todo o resto da década de 70 envolvido com seu trabalho na Funarte, até mesmo auxiliando projetos e carreiras de inúmeros artistas. É bem possível que sua notória timidez e o temor de tocar ao vivo tenham contribuído para seu afastamento da carreira musical.



No início dos anos 80, confessou a amigos que queria gravar um novo disco, com o título de Longo Circuito. Deu uma fita com cinco músicas do futuro projeto para Miltinho, do MPB-4, mas faleceu meses depois, aos 35 anos. As versões oficiais oscilam entre câncer e ataque cardíaco como causas, mas, ao que tudo indica, Sidney se suicidou. Foi o ápice de uma crise depressiva e do vício em álcool.


A Funarte lançaria em 1982 o disco Sidney Miller, produzido por Hermínio Bello de Carvalho e arranjado por Antônio Adolfo, onde as canções ainda inéditas do artista foram interpretadas por Zezé Gonzaga, Zéluiz e Alaíde Costa.


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