segunda-feira, 1 de junho de 2015

Sally Oldfield


Sally Oldfield é uma cantora e compositora, irmã do premiado artista Mike Oldfield. Seu som tem uma mistura de influências que vão do R&B ao progressivo. Além disso, há também elementos de folk e música celta, não só no instrumental, mas nas letras e temáticas que celebram o mundo sob uma ótica pagã. Sua obra afirma o universo feminino, pensando não só propriamente nas mulheres ou nas causas feministas, e sim numa perspectiva de compreensão da natureza a partir do feminino (a Mãe Terra Gaia, os ritos de fertilidade da terra, a natureza como sagrada, etc.)


Mike e Sally em 1973

A maneira como Sally canta e compõe é verdadeira música das esferas: melódica, ao mesmo tempo elaborada e acessível, arquitetada e interpretada como uma verdadeira tapeçaria sonora. Desde que conheci o som de Sally Oldfield, frequentemente me pego ouvindo e cantarolando suas canções.

Recomendo com maior entusiasmo o primeiro disco de Sally, Water Bearer, de 1978. É uma obra-prima que sintetiza todo o projeto estético da artista, com uma força e inspiração que ela mesma não conseguiria reproduzir depois. 

Os discos posteriores, Easy (1979), Celebration (1980) e Playing In the Flame (1981) ainda apresentam diversos temas memoráveis, mas a partir de Strange Day In Berlin (1983), a carreira de Sally adquire uma feição muito comercial, e mesmo quando ela tenta retomar suas características do início da carreira, o faz de maneira bem diluída.  

Melodias e Harmonias


Suas melodias percorrem caminhos que, embora diversos entre si, podem ser pensados por uma unidade de seu projeto. Sua canção mais famosa, “Mirrors”, tem todas as características de um típico hit do típico cancioneiro dos anos 60 ou 70, um tipo de formato de balada clássica (e que dos anos 90 em diante, foi reproduzida porcamente por cantoras como Whitney Houston, Celine Dion, etc.), com características de jazz, R&B, folk, e pop. Poderia facilmente entrar no repertório de cantoras como Carly Simon ou Carole King

Outros temas de Sally entram nessa mesma descrição, como Love is Everywhere, Morning of My Life, The Sun in My Eyes, e outras. A medida que avançam os anos 80, ela remodela os timbres desse formato de canção, e em singles como Broken Monalisa já é possível ouvir sintetizadores e baterias eletrônicas.  

Mas os espectros melódicos de Sally vão além do radiofônico: em “Mandala”, do disco Celebration (1980), um curto tema melódico é repetido com variações de tonalidade à cada repetição, seguindo um mesmo padrão para as subidas e descidas através da paleta tonal. 

A textura e o alcance da voz de Oldfield são elementos essenciais para uma proposta musical tão inusitada realmente funcionar, uma vez que ela vai das notas bem graves para notas super agudas. Se pensarmos nesse tema visualmente, é bem possível que possamos enxergá-lo como uma mandala em forma de canção, por causa da repetição do mesmo motivo, onde as variações tonais simbolizariam a posição de figuras em diferentes lugares da mandala.


Outra marca registrada sonora de Sally é o uso de riffs melódicos feitos no piano ou em instrumentos melódico/percussivos (nos créditos do disco, são mencionados marimba, glockenspiel e vibraphone, e suspeito que sintetizadores também são usados). Essas harmonias seguem padrões de repetição ao longo de diversas das suas canções. 

Aqui, é importante lembrar que um dos maiores, se não o maior divulgador desse tipo de abordagem na música popular talvez tenha sido o irmão de Sally, Mike Oldfield. Em seu clássico disco Tubular Bells, de 1973, o nome e a capa do trabalho já evidenciam tal recurso harmônico. Porém, enquanto os “tubos intermitentes” de Mike são mais cerebrais e experimentais, Sally os encaixa no contexto da canção popular. Os riffs melódicos estão sempre à serviço da canção, e nunca caem na armadilha de atropelar a canção ou poluir a mixagem dos arranjos.

Songs of Quendi


O uso bem sucedido dos arranjos melódico/percussivos de Sally aparentemente surgiram na suíte “Songs of Quendi”, segunda e longa música do seu disco de estréia Water Bearer, de 1978. Para muitos, é a mais bela canção de Sally, apesar de diversos críticos e ouvintes apontarem que a canção teria ganhado mais força caso não se alongasse tanto. 

Sua letra é baseada no livro O Senhor dos Anéis, de J.R.Tolkien, e o tamanho da canção, dividida em várias partes, certamente tenta reproduzir a grandiosidade e a pompa da fábula dos hobbits em busca do anel.



A primeira parte, “Night Theme”, praticamente enfeitiça o ouvinte, através da melodia e da voz aguda e sinuosa de Sally, desembocando em “Wampum Song”, tema folk cativante, de tons silvestres, cheio de violões e bandolins. As partes seguintes, “Nenya” e “Land of the Sun”, são dispensáveis em relação ao épico início.

Uma curiosidade em relação a “Songs of Quendi” é que Sally tentou remodelar esse tema pelo menos duas vezes ao longo da sua carreira: primeiro em “Song of the Mountain”, do disco Natasha (1990) (a melodia é a mesma, mas conta com outra letra e arranjos mais concisos). Depois, de maneira mais discreta na canção “Bird of Paradise” (em seu disco mais recente, Flaming Star, de 2001). 


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