segunda-feira, 8 de junho de 2015

Yes, nós temos dramas!


e agora em versão atualizada

Em 1978, época em que o vendaval punk enxugava os excessos da indústria musical, uma das maiores bandas de rock progressivo passava por maus momentos. Depois de um aclamado trabalho em 1977, comemorando a volta da sua formação clássica, o Yes tentava adaptar sua sonoridade para os novos tempos, o que resultou no fraco Tormato (1978)

Reza a lenda que Rick Wakeman, indignado com a arte de capa do estúdio Hipgnosis, teria atirado um tomate na imagem, e alguém do departamento visual decidiu incorporar o “acidente” no registro oficial. Fato ou não, tal episódio soa praticamente como uma metáfora do que o disco significou.


Trocando Anderson e Wakeman por dois Buggles


A banda não conseguia acertar o passo. Como um pai repreendendo seus filhos, Jon Anderson passava sermões do tipo “essa não é a banda com a qual eu sonhei um dia”! 

Chris Squire, Steve Howe e Alan White se enterravam nos bancos macios do estúdio Advision, sem forças para reagir. Os reclames do furioso líder chegaram apenas ao injuriado Wakeman, que acompanhou Jon para um porre no pub mais próximo. Ambos não voltariam tão cedo.

Quem acompanha a carreira do Yes conhece bem sobre a primeira (e traumática) vez em que o vocalista abandonou a banda. Nesse ponto, as opiniões divergem: há quem ache que seu substituto, Trevor Horn, foi um canastrão incapaz de imprimir vida à essência da banda; outros consideram que Drama (1980) foi um grande disco, à altura das grandes obras que fizeram no passado.


É oportuno rememorar o episódio, uma vez que, em 2011, o Yes reativou sua mais injustiçada encarnação. Ao se verem sem tecladista e com um Jon Anderson adoentado, os mesmos Squire, Howe e White devem ter se olhado e pensado “ei, nós três já passamos por isso antes, não foi??”. A ocasião permitiu um retorno à formação do Yes de 1980, na busca de um desfecho menos, hã, dramático!

Trevor Horn e Geoff Downes
O tecladista Geoff Downes e Horn seriam novamente reativados, mas o ex-vocalista embarcou sob novas condições. Ao longo dos anos, ele se converteu em um produtor de sucesso, e um dos motivos para abandonar o microfone foi a péssima recepção que teve em seu curto tempo no Yes

No documentário Yes Years (1991), ele disse ter tido pesadelos com o episódio durante vários anos. Assim, preferiu voltar apenas como produtor e consultor, e o cargo definitivo de vocalista ficou a cargo do novato Benoit David.

A julgar pela recepção dos fãs, Fly From Here (2011) parece ser o mais elogiado trabalho da banda em cerca de 30 anos, o que mostra que aquela semente plantada no disco de 1980 foi finalmente compreendida. 

E isso não diz respeito apenas ao som: duas demos da época dos Buggles (1980/81) foram resgatadas, compondo a suíte ‘Fly From Here – parts I-V’. Ambas estão presentes (ao lado das versões originais de ‘I Am a Camera’) na versão de 2010 do disco Adventures In Modern Recording (1981), dos Buggles. As demos mostram o quanto as composições cresceram nas mãos do Yes – já é um exercício difícil ouvir as versões sem sentir falta das alucinantes guitarras de Steve Howe, por exemplo.


Um magoado Jon Anderson disse que a sonoridade do single ‘We Can Fly’ lhe parecia “um pouco datada”, e ainda que ele tenha certa razão, tal fato não tira o brilho do trabalho. De fato, essa tal sonoridade talvez possa ser atribuída, acima de tudo, à contribuição do tecladista Geoff Downes. Os timbres de teclados que ele utiliza não escondem um toque familiar a “new wave” do início dos anos 80. 

Isso fica muito claro ao se ouvir os dois únicos (e fabulosos) discos dos Buggles, banda/duo de Downes e Horn. Seu album de estréia, The Age Of Plastic (1980), prenunciava já no título o que os anos 80 se tornariam. Como um fantasma dentro da máquina, o clipe do irônico single ‘Video Killed the Radio Star’ seria o primeiro video transmitido pela MTV, em 1 de agosto de 1981.


Yes com Horn e Downes, 1980.
Presentes no mesmo estúdio em que ‘The Age…’ foi gravado, Squire, White e Howe provavelmente perceberam nos dois garotos a solução para todos os seus problemas: um vocalista e um tecladista, e ambos capazes de fazer a ponte estilística dos anos 70 para os emergentes anos 80. As peças que faltavam no quebra cabeça. 

Porém, dois detalhes fariam a coisa naufragar: a dose de “progressividade” que imprimiriam em canções como ‘Machine Messiah’ e ‘Into the Lens’ talvez fosse exagerada naquela era de três acordes e de ferocidade impostas pelo punk rock. O outro ponto diz respeito ao próprio Yes – um dinossauro sagrado da grandiloquência do gênero progressivo, que criou uma aura grande demais para ser profanada. Muitos fãs até hoje não engolem sobretudo a falta de Jon Anderson, que além de ser a voz do Yes, é o grande responsável pelas temáticas e pela aura mística do grupo.

Novos tempos, velhos dramas


A nova encarnação do Yes continua sem Jon Anderson e também sem o substituto anterior, Benoit David. Assim como Anderson, David foi descartado pela banda depois de sofrer problemas respiratórios. O novo vocalista chama-se Jon Davison - um clone de Anderson no nome e na voz - , já conhecido por seu trabalho com a banda Glass Hammer. Diferente do que possa parecer, Davison não é apenas um vocalista contratado à serviço do Yes e seus acionistas: seu nome é o que mais aparece na lista de compositores em cada faixa do novo disco, Heaven and Earth (2014)

Yes em 2014, Jon Davison à frente.

Se analisamos a história da banda, percebemos que cada novo integrante à ingressar no grupo tem oportunidade de contribuir diretamente nos discos. Desde a revolucionária entrada de Wakeman e Howe, além de Alan White, passando pelo tecladista Suiço Patrick Moraz em Relayer (1974), Horn e Downes em Drama, até a enorme participação de Trevor Rabin em discos como 90125 (1983) e Talk (1994), e não nos esqueçamos também de Billy Sherwood - que já fez as vezes de guitarrista, produtor, e, atualmente, baixista.

Pois é, pela primeira vez, o Yes tem um remanejamento do posto de baixista, até então ocupado unicamente pelo líder Chris Squire. O "gigante gentil" fundador da banda se retirou para tratar de um cancer, e Sherwood fará as vezes no contrabaixo. A turnê do Yes que inicia em agosto de 2015 - ao lado da banda de AOR Toto - será marcante por ser a primeira vez em que a banda sobe aos palcos sem Squire.


A constante troca de integrantes dessa instituição do rock progressivo mostra que o "drama" do Yes reside em sua instabilidade. Contudo, essa constante renovação de seus quadros acaba por revelar facetas diferentes de um estilo aclamado mundialmente. 

Apesar de algumas rendições a modismos vez ou outra, é difícil dizer que algum disco da banda tenha sido ruim ou mal feito. O Yes do século XXI continua relevante e interessante, e ainda tem o poder de cativar plateias ao redor do planeta. 


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