sábado, 19 de setembro de 2015

Resenha: Rattle That Lock (David Gilmour)




por Rafael Senra


De dez em dez anos, David Gilmour lança um disco solo (só quebrou o padrão nos anos 90, mas na ocasião lançou The Division Bell com o Pink Floyd, cuja sonoridade lembra muito seus trabalhos solos). 

Anteontem, vazou na internet seu novo disco Rattle that Lock. Algumas impressões rápidas depois de ouvir ainda nesses primeiros dias:


O disco é bem heterogêneo. As duas músicas vazadas antes do lançamento (a faixa-título e Today) não dão o tom integral do trabalho. Estas tinham um acento bem pop, e o disco como um todo tem climas bem diferentes.

Mesmo as duas faixas já conhecidas, que eu não tinha gostado muito, fazem mais sentido quando se ouve o disco completo. Não a toa, o Floyd foi um dos grupos que lutou contra o Itunes no sentido de impedir o "fatiamento" das canções para a venda digital. Os autores de The Wall sabem bem que a experiência auditiva se beneficia do produto integral.


Em termos de gosto pessoal, seu solo anterior, On And Island, me pareceu melhor que o atual, devido a seu clima melancólico e reflexivo. Além disso, o disco de 2006 possuia uma espécie de síntese dos arranjos, uma trama muito bem pensada de cada nota do solo, cada harmonia. 

Rattle that Lock, por sua vez, é um trabalho mais disperso e excessivo, cheio de camadas, e também menos rigoroso. Isso imprime ao disco certa leveza - que é exatamente o que Gilmour quis comunicar ao acabar definitivamente com o Pink Floyd. Ao que tudo indica, ele quer passar seus anos derradeiros se divertindo, em vez de entrar nas paranóias conceituais da antiga banda.

Nesse aspecto da leveza e da diversão, vale lembrar aqui um outro disco que o guitarrista produziu recentemente, David Gilmour and Friends. O trabalho, lançado recentemente em uma edição da revista Mojo, envolve DG e seus amigos interpretando diversos covers, sem nenhuma aparente intenção maior que não a de se divertir, ao mesmo tempo sem perder de mão a qualidade e certo capricho na produção.


Bem, então vamos lá. Rattle that Lock analisado faixa a faixa:

5 A.M: Como vinheta de abertura, me pareceu funcionar melhor que Castellorizon, do disco anterior. Para os fãs que estavam com certa saudade de Gilmour, arranca arrepios.

- Rattle that Lock: sua melodia remete ao som de anúncios feitos numa estação de trem francesa, e é a faixa mais cantarolável do disco. Quando foi divulgada anteriormente, deixou todo mundo de cabelo em pé ("será que o disco será assim tão pop"?). Mas diante de todo o repertório do trabalho, seu charme salta aos ouvidos, e a cada audição, a faixa-título me parece mais agradável e simpática.

- Faces of Stone: Seu andamento se situa estilisticamente entre o folk e o country, e sua melodia vocal poderia facilmente remeter a alguma canção popular inglesa de séculos passados. Os teclados e orquestras dão um tempero meio "circense" ao tema - lembra bastante a parte introspectiva da faixa Poles Apart (de The Division Bell). Alguns belos solos de guitarra representam a indiscutível assinatura do músico ao longo da canção.

- A Boat Lies Waiting: Uma homenagem ao amigo e parceiro Rick Wright, falecido em 2008. Remetendo ao homenageado, um piano dedilhado de timbre grandioso. A música retoma alguns elementos notáveis de antigos temas elaborados pela dupla no Pink Floyd, especialmente os vocais dobrados (inaugurados em Echoes, de 1971, e cujo último grande encontro se deu na faixa The Blue, de On And Island). Trata-se de um tema estruturalmente simples, porém emocionante. 

- Dancing Right in Front of Me: É uma das mais longas faixas do disco, e repleta de mudanças de dinâmica, mas nem por isso podemos dizer que se trata de um tema "progressivo". Seu ritmo é uma espécie de foxtrot, e a parte cantada é longa e com alguns momentos de dinâmica mais alta ou mais baixa, além de sutis mudanças de tons em pelo menos um trecho. 
Achei sua melodia principal meio sem graça, mas os arranjos e adornos elaborados por Gilmour e sua banda parecem ser capazes de transformar tudo em ouro - é o caso aqui.

- In Any Tongue: tem um andamento a la High Hopes, ainda que não apresente uma melodia e uma cadência tão marcantes quanto a faixa que fechava The Division Bell. Uma bela canção, mas talvez esteja entre as mais fracas do disco. 

- Beauty: Este tema instrumental revela algumas das marcas registradas do som de David Gilmour. A melodia principal é aparentemente simples. Contudo, o uso da dinâmica, que oscila entre momentos sutis e outros de explosão sublime, fazem a cama para que o guitarrista destile um daqueles seus memoráveis solos. Só é uma pena que a música acabe com um fade out, pois merecia um final digno de sua "pompa".

- The Girl In The Yellow Dress: é uma notável surpresa, com seu clima jazzístico de cabaré, que combinou muito bem com o som do Gilmour. Seu vocal característico é embalado por um piano honky-tonky, contrabaixo acústico, bateria com escovinhas e um sax daqueles (Dick Parry?). 

- Today: foi tida por muitos como pop, e de fato ela me parece uma mistura de duas músicas compostas por Gilmour: Learning to Fly (do disco oitentista do PF A Momentary Lapse of Reason) e This Heaven (de On And Island). Mas mesmo um pop "a la" Gilmour revela imprevisíveis e notáveis elementos. Sobretudo nos arranjos orquestrais, e em seu refrão.

- And Then...: foi uma ótima escolha para fechar o disco. Um instrumental belo, onde o timbre da guitarra de Gilmour parece ter vindo direto das esferas celestiais. O solo parece bem espontâneo... eu particularmente senti falta aqui da síntese de seus clássicos solos, cujas notas eram escolhidas (literalmente) a dedo. Talvez tenha faltado também um fechamento épico que combinasse com o tema (assim como em Beauty, um fade out encerra a faixa meio do nada). 

Mas acho que mesmo esses finais bruscos das canções aludem ao fato de que Gilmour não está muito a fim de imprimir climas grandiosos e conceituais em seu trabalho solo. É bem feito, porém despojado. Não só é um disco menos pretensioso na sua falta de conceito, como também apresenta um caráter formal mais espontâneo - melodias simples, solos menos cerebrais. 

Os fãs mais xiitas vão reclamar (principalmente as viúvas de Roger Waters, que, não contentes em blasfemar os discos pós-Final Cut, adoram detonar a carreira solo de Gilmour), mas creio que esse trabalho aos poucos conquistará seu confortável espaço na estante dos ouvintes. Certamente não faz feio na carreira solo do eterno guitarrista do Pink Floyd.


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